Escatologia – Final

A purificação após a morte: o estado purgatório 

Depois de termos tratado de todos os temas da escatologia cristã, vamos falar sobre o purgatório.

            Nossos irmãos protestantes criticam-nos e dizem que o purgatório é invenção da Igreja católica! Nada disso! A doutrina do purgatório está presente na Sagrada Escritura e na contínua Tradição da Igreja. O problema é compreendê-la bem, para não terminar colocando na nossa cabeça coisas que a Igreja jamais ensinou, deturpando, assim, a nossa fé católica!

            Primeiramente é necessário deixar claro uma coisa: não existe, na Bíblia, uma passagem falando sobre o purgatório, nem tampouco existe esta palavra “purgatório”! É inútil procurar. Mas, vejamos bem os seguintes pontos:

      No Antigo Testamento aparece uma constante convicção que somente uma absoluta pureza é digna de ser admitida à visão de Deus; nada de impuro pode estar diante dele: “Tendo Moisés transmitido ao Senhor a resposta do povo, o Senhor lhe disse: “Vai ter com o povo e o santifica, hoje e amanhã. Eles devem lavar as vestes, e estar prontos para o terceiro dia, pois no terceiro dia o Senhor descerá à vista de todo o povo sobre a montanha do Sinai. O povo todo presenciou os trovões, os relâmpagos, o som da trombeta e a montanha fumegando. à vista disso, o povo permaneceu ao longe, tremendo de pavor. Disseram a Moisés:’“Fala-nos tu, e te escutaremos. Mas que não nos fale Deus, do contrário morreremos’” (Ex 19,10s; 20,18s). “Ai de mim! Estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de lábios impuros, e meus olhos viram o rei, o Senhor Todo-poderoso” (Is 6,5). “Lá haverá um caminho; chamar-se-à Caminho Santo. Nenhum impuro passará por ele; os insensatos não errarão nele” (Is 35,8). Também o Novo Testamento tem esta mesma convicção: Jesus afirma que os puros de coração verão a Deus (cf. Mt 5,8) e o Apocalipse diz que nada profano entrará na nova Jerusalém (cf. 21,27).

*      Outro elemento, ainda mais importante, presente na Bíblia é a convicção da responsabilidade humana no processo da justificação (isto é, de sermos santificados por Deus), que implica na necessidade de uma participação pessoal na reconciliação com Deus e na aceitação das conseqüências penais derivadas dos pecados. Em outras palavras: Deus não salva o homem automaticamente, sem a sua aceitação e sem a sua participação – não somos fantoches de Deus! Em 2Sm 12, que conta o pecado de Davi com a mulher de Urias, existe uma típica distinção entre culpa e pena: Deus perdoou o pecado de Davi, mas a pena pelo pecado permaneceu: o filhinho morreu! Afinal de contas, o pecado, como fruto de uma livre decisão, não é um ato mecânico nem isolado, mas afeta a estrutura global do homem, tanto na sua dimensão pessoal quanto comunitária. Dou um exemplo: imaginem uma pessoa que gosta de difamar os outros. Cada vez que ela cai neste pecado e se confessa, o pecado é perdoado… mas as conseqüências permanecem: em primeiro lugar, esta pessoa, cada vez que cai neste pecado, fica mais fraca, mais viciada nele; em segundo lugar, pensem no mal, na difamação que ela espalhou! Tudo isto pesa na nossa vida: nós somos aquilo que fomos fazendo na vida; nossos atos nos formam, formam nossa personalidade e terão conseqüências no nosso destino eterno!

            Agora, vejam bem: é precisamente estas duas idéias que abrem a possibilidade de que alguma pessoa de bem, amiga de Cristo, morra sem ter alcançado o grau de maturidade espiritual requerida para viver na comunhão imediata com Deus, havendo, portanto, a necessidade de uma purificação após a morte. Imaginem uma pessoa que ama o Cristo, que vive nele, que tem uma vida de Igreja… mas esta pessoa tem um vício, uma falha, uma má tendência que não consegue superar. Ora, após a morte, certamente esta pessoa vai ter que ser purificada desta má tendência que estava “colada” nela: é como a ferrugem que precisa ser raspada! É à luz dessa situação que a Escritura apresenta e aprova o costume da oração pelos defuntos. Leia, por exemplo, 2Mc 12,40ss. Vejamos também outros textos: “De outra maneira, o que pretendem aqueles que se batizam em favor dos mortos? Se os mortos realmente não ressuscitam, por que se batizam por eles?” (1Cor 15,29). O Apóstolo, aqui, refere-se a uma rito existente na Igreja de Corinto de ‘fazer-se batizar pelos mortos”. Parece que os fiéis esperavam que um batismo no lugar dos mortos favoreceria os membros pagãos de suas famílias que já haviam falecido. Ou então, o batismo no lugar dos catecúmenos falecidos antes do batismo. Paulo nem aprova nem desaprova tal prática… O que nos interessa aqui é a convicção que Paulo mostra de que certas ações litúrgicas, certas orações da Igreja, poderiam ser proveitosas aos mortos! Isso aparece claro! “O Senhor conceda sua misericórdia à família de Onesíforo, porque muitas vezes me socorreu e não se envergonhou de minhas algemas. Pelo contrário, quando veio a Roma, procurou-me com solicitude até me encontrar. O Senhor lhe conceda a graça de obter misericórdia junto ao Senhor naquele Dia. Sabes melhor do que ninguém, quantos bons serviços prestou ele em Éfeso (2Tm 1,16-18). Segundo os indícios, Onesíforo está morto e Paulo intercede por ele, suplicando a misericórdia do Senhor. Em outras palavras, Paulo reza por um morto!

            Concluindo, está presente na Escritura a oração pelos mortos, que a Igreja conheceu e praticou constantemente. Também a Tradição mais antiga da Igreja atesta abundantemente o costume de rezar pelos mortos litúrgica e privadamente. Tais testemunhos encontram-se particularmente nas catacumbas e cemitérios. Pense-se, por exemplo, na famosa inscrição encontrada sobre o túmulo de um cristão chamado Abércio, no início do cristianismo. Aí lê-se: “… quem compreende e está de acordo com estas coisas, rogue por Abércio”. Tertuliano, no século III, atesta largamente o costume de orar pelos defuntos pública e privadamente, inclusive oferecendo por eles a Eucaristia. Ele diz claramente que a viúva “ora pela alma (do marido)… e oferece um sacrifício em cada aniversário de sua morte”. Assim, é claríssimo o costume da oração pelos mortos nos quatro primeiros séculos cristãos. Um texto que teve particular importância para o nosso tema foi o de São Cipriano, bispo de Cartago no século III. Explicando uma frase de Cristo, ele diz o seguinte: “Uma coisa é não sair o encarcerado até pagar o último centavo e outra é receber sem demora o prêmio da fé e do valor. Uma coisa é purificar-se dos pecados pelo tormento de grandes dores e purgar muito tempo pelo fogo… e outra, ser coroado logo pelo Senhor”. Cipriano aqui refere-se aos que fugiram do martírio nas perseguições: para aqueles que não puderam se purificar antes da morte ou pelo martírio, haverá um “fogo purificador”, fogo purgatório. Aqui aparece pela primeira vez um testemunho explícito da convicção deste estado purgatório. Mas, notemos que a expressão “fogo purgatório” é, metafórica.

            Desde então, vai aparecendo cada vez mais claro para os cristãos:

(1) a existência de um estado no qual os defuntos são purificados,

(2) o caráter penal-expiatório deste estado e

(3) a ajuda que os sufrágios, as orações dos vivos podem dar aos defuntos.

            Afinal, como devemos entender o purgatório? Vamos partir de uma belíssima imagem do Apocalipse, que descreve o Cristo ressuscitado: “Os olhos eram como chamas de fogo. Os pés, semelhantes ao bronze incandescente no forno, e a voz, como a voz de muitas águas” (Ap 1,14b-15 cf. Dn 10,6).

            Morrer é partir para estar com Cristo, para encontrar aquele que “tem os olhos de fogo”, quer dizer, que nos vê como somos. No nosso encontro com ele, este fogo do seu olhar amoroso, fogo que é o próprio Espírito Santo, nos purificará: tudo aquilo que em nós foi “poeira do caminho”, aquelas pequenas coisas que ainda nos atrapalhavam e impediam que fôssemos totalmente livres, serão “queimadas”, purificadas no abraço final que Cristo nos dará! Então, compreendamos bem: o purgatório não é um lugar, nem está entre o céu e o inferno! O purgatório é a purificação que recebemos logo após a nossa morte, quando o abraço amoroso de Cristo nos envolve no fogo do seu amor! A gente passa pelo purgatório logo após a morte, caso ainda tenhamos aqueles apegozinhos, aquelas escravidõezinhas, aqueles pecadinhos de estimação…. Cristo completará em nós a obra começada. Mas, atenção: não é que a gente vai se converter depois da morte! Nada disso! Com a morte acaba nossa possibilidade de escolha: o purgatório é para quem escolheu o Cristo, viveu com ele, mas ainda tinha as pequenas incoerências de cada dia! Quem escolheu viver longe de Cristo não experimenta o purgatório, mas, ao contrário, viverá para sempre na contradição. Vimos isso quando falamos sobre o inferno!

            E as famosas penas do purgatório? Tratam-se simplesmente da dor, do sofrimento por ver que não amamos o bastante o Senhor. Quem é amado e descobre que não correspondeu a este amor como devia, sofre! Assim, o sofrimento do purgatório não é algo que Deus nos impõe, mas algo que vem da nossa própria imperfeição, da dor de não ter amado o bastante.

            E para que rezar pelos mortos que passam por este estágio purgatório? Já vimos que a Bíblia atesta a oração pelos mortos: trata-se de uma expressão belíssima da solidariedade dos membros do Corpo de Cristo: os mortos não cumprem seu destino de modo solitário, mas inseridos no Corpo do Senhor. A Igreja da terra está unida à Igreja que se purifica: o amor de Cristo nos uniu! Inseridos no Corpo de Cristo pelo Batismo, jamais estamos isolados, jamais estamos sozinhos! Mais ainda: neles, a Igreja mesma se purifica para ser Igreja glorificada!

            Uma última questão: se o purgatório acontece imediatamente após a morte e ninguém “fica” no purgatório, mas “passa” logo e pronto, para quê, então, rezar pelos mortos? É que para Deus não há tempo; tudo para ele é presente: a oração que fazemos hoje serve para um irmão nosso que já morreu há cem anos!

            Assim, rezemos pelos nossos mortos. Às vezes a gente escuta dizer na missa: “pelas almas do purgatório…” O que significa isso? Simplesmente: “pelos nossos irmãos que se purificam…” Rezamos para que sintam nossa solidariedade, já que a Igreja é a comunhão dos santos (=dos batizados), todos unidos no Corpo de Cristo ressuscitado.

            É muito errado fantasiar o purgatório, pensando que é um lugar, ou que lá se está sofrendo castigos, ou que alguém fique lá por uns tempos… Na outra vida não há tempo como aqui, nesta vida! Cuidado com as afirmações tolas e infantis!

            Uma coisa é certa: somente purificados de nossas incoerências poderemos estar com Aquele que é a Verdade. Se não arrancarmos nossos pecadinhos de estimação aqui, o Senhor vai arrancá-los no momento de nosso encontro com ele! E que dor saber que não fomos generosos o bastante! É isto – e só isto – que a Igreja quer dizer quando fala em purgatório!

            Com isto terminamos nossos tópicos de escatologia. Espero que tenham servido para esclarecer melhor nossa esperança em Cristo e nossa fé católica! Obrigado a você que me acompanhou ao longo destes artigos neste site.

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